NOVAS GUERRAS: ÁGUA, ENERGIA E CLIMA

As guerras dos séculos XX e XXI não começam mais no campo de batalha. Começam com bombas em centros urbanos e nas infraestruturas essenciais, começa quando a água deixa de chegar, a eletricidade falha, os hospitais entram em modo de emergência e os sistemas que tornam possível a vida em sociedade passam a operar no limite ou simplesmente colapsam.

Durante séculos, a guerra foi pensada como um confronto entre exércitos. Carl von Clausewitz a definiu, em Da Guerra, como a continuação da política por outros meios. A definição permanece. Os meios, não. Hoje, a guerra já não se desenrola apenas entre tropas e fronteiras. Ela se deslocou para os sistemas que sustentam a vida coletiva: água, energia, logística, infraestrutura e comunicação. 

Como bem explica o jornalista Michele Serra, o petróleo pode ser substituído por outras fontes de energia – a água, não.  A água  é condição essencial para a vida. A rede hídrica de Gaza foi um dos primeiros objetivos militares de Israel. Na Ucrânia, com o constante bombardeamento russo da infraestrutura, muitos milhares de famílias ficaram sem energia e sem aquecimento em pleno inverno, com temperatura de 20 graus negativos.  Os países do Golfo, riquíssimos em petróleo, têm água escassa e usinas de dessalinização passam a ser alvos militares de primeira grandeza.

As Convenções de Genebra de 1949 e seus Protocolos Adicionais formam a espinha dorsal do Direito Internacional Humanitário, e proíbem ataques contra bens civis e estruturas indispensáveis à sobrevivência da população, podendo caracterizá-los como crimes de guerra. Na prática, porém, muitos desses alvos são de uso duplo (civil e militar), o que torna sua classificação frequentemente controversa. E, infelizmente, mesmo quando claramente o alvo atingido constitui crime de guerra – como bombardear hospitais e outras estruturas médicas em Gaza – a responsabilização dos autores permanece rara. A aplicação das normas internacionais depende de mecanismos frágeis, sujeitos a disputas políticas, limitações de jurisdição, etc. O resultado é um descompasso persistente entre a gravidade das violações e a capacidade efetiva de puni-las.

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Área transformada em deserto no Irã – foto@Irannewswire.com

A crise da água antecede a guerra

No Irã, a guerra encontra um país que já estava em crise ambiental profunda antes dos ataques. O Irã não entra na guerra partindo de um equilíbrio precário, mas de um quadro de colapso progressivo. Secas prolongadas, períodos de calor extremo, décadas de extração excessiva de água subterrânea, políticas agrícolas insustentáveis e má gestão levaram ao esgotamento acelerado de aquíferos. Em várias regiões, isso provocou subsidência (afundamento) do solo em taxas superiores a 20 centímetros por ano, entre as mais altas registradas no mundo. Quando o solo afunda, não é apenas a paisagem que muda: estradas, bairros inteiros e infraestrutura crítica tornam-se instáveis.

Rios desapareceram, lagos encolheram, planícies tornaram-se salinas, a desertificação avançou e regiões agrícolas perderam viabilidade. A crise hídrica iraniana já vinha produzindo deslocamentos internos, protestos e tensão social antes da guerra. O conflito não cria esse cenário. Ele incide sobre um sistema degradado e acelera processos que, em alguns casos, se aproximavam do irreversível.

Israel oferece um contraponto importante, mas não simples. Também situado numa região de escassez extrema, o país desenvolveu um sistema hídrico sofisticado, baseado em dessalinização em larga escala, reuso intensivo de águas residuais e gestão eficiente da distribuição. Em Israel, a água tornou-se, em grande medida, um produto industrial. Isso demonstra que a escassez pode ser tecnicamente administrada. Mas revela também um limite decisivo: essa solução depende de energia contínua, estabilidade política, segurança física e infraestrutura intacta. O sistema é resiliente, mas não invulnerável. O contraste entre Irã e Israel é, nesse sentido, esclarecedor: de um lado, um sistema natural esgotado; de outro, apesar do sistema natural esgotado, um sistema tecnológico altamente eficiente. Mas ambos dependem de condições que podem falhar.

A crise da água no Oriente Médio torna a guerra ainda mais devastadora. A escassez hídrica é uma condição estrutural. A demanda supera de forma crônica a reposição natural, e a dimensão dessa crise pode ser medida em termos globais. Estima-se que 18 dos 30 países mais pressionados do mundo em recursos hídricos estejam no Oriente Médio e no Norte da África. Em muitos desses países, a situação é descrita por analistas como “falência hídrica“. A água deixou de ser um dado da natureza para se tornar um problema técnico, político e econômico. O sistema já não se apoia apenas em rios, chuvas e aquíferos. Apoia-se, cada vez mais, em soluções artificiais e energeticamente intensivas.

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Usina de dessalinização de Ras al-Khair, Arábia Saudita. AFP – FAYEZ NURELDINE

Países do Golfo dependem das usinas de dessalinização

É por isso que o Oriente Médio construiu uma das maiores infraestruturas de dessalinização do planeta. Países do Golfo concentram cerca de metade da capacidade global de dessalinização, e grandes instalações como Ras Al-Khair, na Arábia Saudita, produzem mais de um milhão de metros cúbicos de água por dia. Complexos como Jebel Ali, nos Emirados Árabes Unidos, sustentam áreas metropolitanas inteiras. Em Israel, a usina Sorek tornou-se um dos símbolos mais conhecidos dessa nova engenharia da sobrevivência. O Irã possui dezenas de usinas de dessalinização, principalmente concentradas em suas províncias costeiras do sul. Essas usinas são, literalmente, fábricas de água, e operam sob uma condição inflexível: não podem parar. Dependem de energia contínua, cadeias logísticas estáveis, peças, manutenção e segurança. A água não é estocada em escala suficiente para absorver interrupções prolongadas. Ela é produzida em fluxo contínuo. Quando esse fluxo é interrompido, o colapso pode ser rápido. É nesse ponto que a crise ambiental e a guerra se encontram.

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Depósito de petróleo, Teerã, atingido por bombardeio israelense – foto – CNN

Infraestruturas essenciais bombardeadas

Nos conflitos mais recentes, essa vulnerabilidade deixou de ser teórica. Refinarias, depósitos de petróleo, redes elétricas, portos, aeroportos e instalações industriais passaram a ser alvos centrais. Usinas  de dessalinização foram bombardeadas no Irã, e pelo Irã em outros países do Golfo. Em Teerã, refinarias e depósitos de combustível foram atingidos, desencadeando incêndios de grande escala. Os primeiros ataques alcançaram ao menos quatro grandes depósitos na região de Teerã, mas a campanha rapidamente se expandiu. Estimativas indicam que dezenas de instalações energéticas – entre depósitos adicionais, refinarias e campos de gás – foram atingidas nas semanas seguintes, sem que exista ainda um balanço consolidado e plenamente verificável do total de alvos. No Qatar, ataques iranianos também miraram a infraestrutura civil, incluindo o aeroporto internacional, segundo a Reuters. Em outros pontos do Golfo, a lógica é a mesma: não se trata apenas de destruir um ativo econômico, mas de atingir os nós que conectam energia, abastecimento, mobilidade e funcionamento urbano.

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Foto AFP – @ www.lemonde.fr

“Armas de destruição em massa”

Quando instalações de petróleo e refino queimam, o impacto vai muito além da perda material. Esses incêndios liberam uma mistura complexa de poluentes, incluindo partículas finas, óxidos de enxofre e nitrogênio, compostos orgânicos voláteis e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos. Compostos como benzeno e formaldeído, ambos associados a risco carcinogênico, podem permanecer no ar por dias ou semanas, ser inalados por populações inteiras e depois se depositar no solo e na água. Em Teerã, relatos indicam que uma chuva escura — resultado da mistura de partículas de óleo em suspensão com a precipitação — caiu sobre bairros inteiros, cobrindo ruas, carros, plantas e superfícies urbanas. Moradores descreveram sintomas quase imediatos: irritação nos olhos e na garganta, dificuldade respiratória, mal-estar generalizado. Em uma área densamente povoada, os efeitos da exposição a essa combinação de poluentes assumem uma dimensão particularmente grave. O incêndio que atingiu, ainda antes da guerra, a Floresta Hirkaniana, no norte do Irã – área considerada patrimônio mundial pela UNESCO e uma das formações florestais mais antigas do planeta, com dezenas de milhões de anos, descritas como o pulmão do Irã -, terá efeitos negativos para a saúde da população por décadas.

Em outras palavras, a guerra não produz apenas destruição imediata: ela também semeia exposição tóxica prolongada, agravando doenças respiratórias, cardiovasculares e alto risco de câncer ao longo do tempo. Esse é um dos sentidos mais profundos da materialidade da destruição: não se destrói apenas o presente, contamina-se o futuro. E, possivelmente, pela primeira vez em escala contemporânea, incêndios de petróleo dessa magnitude ocorrem em uma área urbana tão densamente povoada (Teerã tem mais de 10 milhões de habitantes), criando um risco direto à vida em escala maciça, como aquelas “armas de destruição em massa” que o Iraque não tinha.

Cadeia de serviços essenciais colapsam

A destruição de redes elétricas amplia tudo isso. Sem energia, estações de bombeamento deixam de funcionar, o tratamento de água é comprometido, hospitais dependem de geradores e a cadeia de serviços essenciais entra em regime de precariedade. Em regiões altamente dependentes de dessalinização, isso significa que a água potável pode desaparecer não apenas porque uma usina foi diretamente atingida, mas porque o sistema ao redor — eletricidade, combustível, logística, acesso — foi rompido.

É importante insistir nesse ponto: mesmo quando não há um inventário público, confiável e consolidado de usinas de dessalinização diretamente bombardeadas em toda a região, a sua vulnerabilidade sistêmica é evidente. Uma única grande usina pode abastecer centenas de milhares, e às vezes mais de um milhão de pessoas. Em países onde a dessalinização responde por grande parte da água potável, poucas interrupções bastariam para produzir uma crise humanitária. Esse é o paradoxo da engenharia hídrica regional: ela tornou possível a vida em zonas áridas, mas criou uma dependência extrema de sistemas que a guerra moderna sabe como atingir.

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Nova geração de drones usados pelo Irã – foto: Tehran Times

Ataques precisos e de baixo custo, defesa cara

É nesse cenário que a análise de Fareed Zakaria, no Washington Post, ajuda a compreender a transformação militar mais ampla. Segundo ele, a guerra entrou na era da “massa precisa”: sistemas baratos, como drones de baixo custo, passam a realizar em grande escala ataques que antes exigiam plataformas sofisticadas e caríssimas. Zakaria observa que, no início da campanha de retaliação de Teerã, drones representaram cerca de 71% dos ataques registrados contra estados do Golfo, e que os Emirados Árabes Unidos teriam enfrentado 1.422 drones e 246 mísseis em apenas oito dias. Essa mudança altera não apenas a tática, mas a economia da guerra. Um drone barato pode custar algo como US$ 35 mil; um interceptor Patriot, em torno de US$ 4 milhões. A defesa passa a gastar milhões para neutralizar enxames que custam milhares. Mesmo quando a defesa funciona, ela representa um forte desgaste econômico.

Essa nova arquitetura militar torna a infraestrutura ainda mais vulnerável. Ataques repetidos, distribuídos, baratos e relativamente fáceis de escalar criam um estado permanente de pressão sobre refinarias, portos, redes elétricas, aeroportos e sistemas de água. A guerra já não opera apenas por destruição concentrada, mas por saturação.

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Palestinos voltam a Rafah, Gaza. Foto AP/ Mohammad Abu Samra.  Jan. 20, 2026.

Depois da guerra

A guerra não termina ambientalmente quando cessam os bombardeios. Ela entra numa segunda fase: a eliminação dos escombros e a reconstrução. Os escombros da guerra (concreto, aço, vidro, amianto, resíduos industriais e militares) são uma fonte relevante de poluição: geram poeiras finas, liberam metais pesados e compostos tóxicos. A remoção e o transporte também emitem muito CO 2. O destino dos escombros varia: parte é reciclada como agregado para novas construções, parte é usada para aterros ou nivelamento, mas uma fração significativa vai para depósitos improvisados, muitas vezes sem controle ambiental, contaminando solo e água. Reconstruir refinarias, redes elétricas, bairros devastados, estações de bombeamento, estradas, pontes, portos, aeroportos e sistemas urbanos exigirá quantidades imensas de cimento e concreto. E a produção de cimento responde por cerca de 7% a 8% das emissões globais de CO 2, sendo uma das indústrias mais intensivas em carbono do planeta. Ou seja, a destruição abre caminho para uma reconstrução que também emitirá grandes quantidades de CO 2. A guerra continua no clima por outra via.

Esse raciocínio é reforçado pelo atual debate sobre o custo climático da guerra. Um relatório citado em análises recentes estimou que, nas primeiras duas semanas do conflito, mais de 5 milhões de toneladas de CO 2 já haviam sido emitidas. Mesmo tratando esse número com cautela metodológica, a direção do argumento é inequívoca: incêndios, explosões, mobilização militar, destruição urbana e posterior reconstrução produzem uma pegada climática de enorme escala. Em termos globais, isso representa uma fração pequena das emissões anuais — inferior a 0,01% —, mas concentrada em poucos dias e associada a impactos ambientais e sanitários intensos. É o equivalente, em escala, às emissões anuais de pequenos países ou a meses de atividade de grandes centros urbanos comprimidos no tempo da guerra. 

Tudo isso altera o próprio significado de vencer uma guerra. No passado, a disputa central era pelo controle de territórios. Hoje, cada vez mais, a disputa é pelo controle — ou pela interrupção — de sistemas. Quem consegue manter água, energia, logística, hospitais e infraestrutura funcionando resiste. Quem não consegue, entra em colapso, mesmo antes de perder militarmente.

É por isso que o Estreito de Ormuz permanece tão central quando se fala de chokepoints. “Chokepoints”, literalmente traduzido como pontos de estrangulamento, são pontos geográficos estreitos – como o Estreito de Ormuz ou o Canal de Suez – ou infraestruturas críticas cujo controle pode bloquear fluxos vitais (comércio, energia, água). O conceito existe desde a Antiguidade (rotas, desfiladeiros, portos), mas ganhou formulação geopolítica moderna no séc. XX. O livro Chokepoints (2025), de Edward Fishman, analisa como esses pontos são usados hoje como instrumentos de poder econômico e estratégico. O conflito moderno se concentra nesses gargalos: lugares, infraestruturas e fluxos cuja interrupção pode desorganizar sistemas inteiros. A guerra do século XXI não precisa destruir tudo. Basta atingir os pontos certos.

No Oriente Médio, isso significa algo muito concreto. Quem controla a água controla mais do que um recurso. Controla a sobrevivência. E, quando a água depende de eletricidade, combustíveis, cadeias logísticas, usinas, portos e estabilidade, a guerra deixa de ser apenas um confronto entre exércitos. Ela se torna um ataque à própria possibilidade de vida organizada.

Desastre humanitário, conflito global

Uma dimensão que frequentemente escapa aos números — ou que, quando aparece, surge fragmentada, incompleta e disputada, é a dimensão humana. No caso do Irã e dos outros países do Golfo, não há ainda um balanço consolidado  e confiável do número total de mortos, feridos e desabrigados. Relatos indicam vítimas civis em múltiplas cidades, hospitais pressionados e populações deslocadas, mas os números permanecem incertos — e, em muitos casos, subestimados. O Wall Street Journal, na edição de 28 de março, um mês depois do início da guerra, fala em 3 mil mortos (incluindo os mortos no Líbano) e 4 milhões de deslocados. E entre os mortos, 175 meninas entre 7 e 13 anos atingidas na escola por um míssel americano na primeira manhã do ataque.

Como em outros conflitos recentes, são as populações mais vulneráveis, especialmente crianças, que concentram os impactos mais duradouros: exposição a poluentes, interrupção de serviços básicos, trauma psicológico e perda de condições mínimas de vida. Em guerras como esta, a contabilidade das vítimas raramente acompanha a escala real do dano. 

As guerras de hoje, como a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, não podem mais ser compreendidas como conflitos locais. Seus efeitos se propagam muito além da região: atingem cadeias energéticas globais (20% do petróleo e mais de 30% dos fertilizantes passam pelo estreito de Ormuz), pressionam preços, desorganizam fluxos comerciais, e ampliam a instabilidade econômica internacional. Um exemplo: dias após os ataques aos depósitos de petróleo em Teerã, a pluma de fumaça dos incêndios seguiu para o leste, atravessando o Afeganistão, a China e alcançando a Rússia. Para além de simplesmente espalhar a poluição pelo planeta, essa fumaça transportada pelo ar pode favorecer o acúmulo de fuligem em grandes altitudes e acelerar o derretimento de geleiras. Em um mundo interconectado, a guerra não fica onde começa, não pode ser contida dentro de fronteiras. Ela se propaga, silenciosamente, pelos mercados, pelo clima e pelas sociedades, tornando cada guerra, em alguma medida, uma guerra de todos.

Imagem inicial: Antoine-Jean Gros, “Napoleão na batalha de Austerlitz”. 1805, Louvre. @wikipedia.org

Maristela Jardim Gaudio – 10 de abril de 2026

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