Malkut, o Reino: a natureza na Cabala

A natureza sempre teve um papel importante nas diversas tradições espirituais que foram constituindo a nossa cultura. Ela aparece em teorias de nascimento do mundo, cosmogonias em geral conectadas a histórias da manifestação divina. Espécie de cosmo-teogonias. E ela permeia o elo entre o ser humano e o espírito que o transcende e nele mora.

No texto que veremos mais abaixo, proveniente da Cabala judaica – a qual nutriu outras tradições também, como a cristã –, Malkut (o Reino) surge como a sefirá situada na base da árvore da vida. As sefirot, plural hebraico de sefirá, são irradiações ou esferas que contêm os atributos-chave de Deus, e que o homem, feito à imagem d’Ele mas desviado, deveria reconhecer e desenvolver em seu trajeto.  

O diálogo entre as tradições foi especialmente fértil em certos lugares e momentos da história, como na antiga Alexandria (no Egito) ou na Espanha medieval, região onde muçulmanos, judeus e católicos conviviam, dando origem a obras de sabedoria universal. Embora se situem numa determinada tradição, a firmem e a propaguem, nutrindo-se de seus conhecimentos ancestrais, essas obras também refletem o diálogo com outras filosofias (como o neoplatonismo), e inspiram todos os povos. Assim é por exemplo o Zohar, livro clássico da cabala judaica – compilado pelo rabino Moisés de Léon no final do século XIII espanhol –, em que a árvore da vida é expressamente estudada.

A própria fórmula “árvore da vida” já coaduna natureza e espiritualidade, a primeira oferecendo-se como símbolo da segunda. A árvore é composta de 10 sefirot, interligadas, e como que dá um roteiro da realização espiritual humana. A primeira sefirá, Keter (coroa), ao alto, está por sua vez ligada (acima, para além da própria árvore) ao infinito e ao vazio, de onde emana o espírito. A décima e última, na base da árvore, é Malkut, o Reino, onde podemos situar a terra física, no mesmo tronco central de Keter.

Se Malkut pode idealmente manifestar a plena presença de Deus (a Schehiná), a possibilidade de rompimentos entre as duas Sefirot tão afastadas entre si (Keter no mais alto e Malkut no mais baixo) é imensa, fatal mesmo, daí a necessidade de religações.

No texto abaixo, de Edward Hoffman, a natureza não degradada auxiliaria a reconexão do homem com seu Deus. Vejamos:

Malkut

Malkut (Reino) é a mais baixa das Sefirot. Na Cabala, é associada com o domínio da natureza e todos os seus aspectos que ressoam em nossa alma: plantas floridas e árvores majestosas, animais selvagens e domésticos, colinas ondulantes e montanhas imponentes, rios correntes e lagos plácidos, vastos oceanos e orlas costeiras, e incontáveis outras inspiradoras formas da paisagem.

Datando lá de trás nos tempos bíblicos, os sábios judeus ensinaram que a natureza tem o poder de acordar em nós intensos sentimentos de reverência; os Salmos são recheados de louvores do Rei David aos trabalhos manuais de Deus, revelados em fenômenos naturais; da mesma maneira, o Zohar descreve poeticamente como cada planta e erva da face da terra canta uma celebração ao Santíssimo.

Mais especificamente relacionados à nossa espiritualidade, os Cabalistas têm há muito tempo insistido em que podemos experimentar uma bem-aventurança por meio da experiência do esplendor da natureza. Os primeiros praticantes hassídicos enfatizaram especialmente esta noção; por exemplo, Rabi Nachman de Bratislávia observou: ‘Quando o verão começa a se aproximar, é muito bom meditar nos campos. Este é um momento em que você pode orar a Deus com profunda saudade e anseio. Quando cada arbusto do campo começa a retornar à vida e a crescer, todos eles anseiam por ser incluídos na prece e na meditação.’

Em outra ocasião, Rabi Nachman recomendou a seus seguidores: ‘É melhor se isolar e meditar nos prados fora da cidade. Vá para um campo gramado, pois a relva despertará o seu coração’.

Infelizmente nossa atual maneira urbanizada de viver permite poucas oportunidades para estes momentos inspiradores. Fora das infrequentes férias, raramente somos expostos a vastas vistas da natureza. Mesmo em férias de verão ou em feriados, contínuas pressões frequentemente tornam difícil ver e sentir o que estamos procurando nas montanhas, nas costas marinhas ou no campo.

Para fortalecer nossas conexões com a natureza, medite em Malkut. Se nos últimos tempos você não tiver experimentado um pouco da grandeza e da majestade do mundo natural, ou sua beleza quieta e gentileza, Malkut é importante para você agora. Quando esta carta aparece, num contexto de adivinhação, Malkut aconselha: passe mais tempo na natureza – sinta sua afinidade com plantas e animais, colinas e montanhas, cachoeiras, rios e riachos, e o planeta girante que é a sua casa.”

HOFFMAN, Edward. The Kabbalah Deck: Pathway to the Soul. San Francisco-CA, USA: Chronicle Books, 2000. p. 84 e 85.

Tradução e Introdução de Rosie Mehoudar, dezembro de 2023.

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