Minerais críticos e terras raras no centro da geopolítica mundial
Rodrigo Péret é um frade franciscano, que trabalha há 37 anos com questões de conflitos de terras, como membro da Comissão Pastoral da Terra. Frei Rodrigo também é assessor da Comissão Especial de Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O artigo que resumimos aqui foi publicado no último dia 14 de novembro, no Le Monde Diplomatique, como parte da série Para adiar do fim do mundo.
A corrida global pela “transição verde” ou energética — apresentada como solução para a crise climática — está redesenhando fronteiras de poder e reativando velhas formas de exploração. Segundo o artigo, a transformação energética no século 21 vem acompanhada das transições digital e militar, todas sustentadas por uma mesma base: a mineração intensiva.
Painéis solares, turbinas eólicas, baterias de carros elétricos, celulares, computadores, inteligência artificial e equipamentos militares de última geração dependem de minerais críticos como lítio, cobalto, níquel, cobre e terras raras, entre outros. A promessa de um futuro descarbonizado está, assim, profundamente atrelada a uma nova forma de extrativismo — agora travestido de economia verde.
Enquanto a maioria das reservas desses recursos está no Sul Global, o refino, a tecnologia e o controle de mercado permanecem concentrados no Norte. A Europa e os Estados Unidos buscam reduzir sua dependência da China, que hoje domina o refino de mais de 80 % das terras raras mundiais, transformando o abastecimento mineral em tema de segurança nacional.
O artigo descreve a formação de um “complexo industrial-militar-mineral”, no qual discursos sobre sustentabilidade e segurança convergem para produzir mais armas e justificar a expansão de fronteiras de exploração. Em países da África e da América Latina, na guerra entre Ucrânia e Rússia, acordos diplomáticos e militares vêm sendo usados como via de acesso a reservas estratégicas — muitas vezes à custa de comunidades locais e ecossistemas frágeis.
O autor defende que essa não é uma verdadeira transição, mas uma continuidade colonial, com a mesma lógica de concentração de poder e espoliação ambiental, ainda dependente da exploração de recursos finitos. A saída, segundo Frei Rodrigo, seria uma transição pós-extrativista e decolonial, que redefina os parâmetros de desenvolvimento e coloque a justiça climática e social no centro das políticas energéticas globais. Ou seja, uma transição realmente ecológica, centrada em: redução do consumo energético e material, diminuição significativa na produção militar, diversificação de fontes e tecnologias locais, democratização do acesso à energia, regulação ambiental rigorosa e reconhecimento da soberania dos povos e territórios afetados. (Leia o artigo completo aqui.)
Interessante notar que o trabalho das várias instituições religiosas que se ocupam de meio ambiente se baseia na Encíclica Laudato Sí (2015) do Papa Francisco, documento muito bem informado sobre a crise climática e que mostra como a degradação da natureza, a nossa “casa comum”, está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana. A CNBB continua participando ativamente dos debates relacionados ao meio ambiente. Veja no link a proposta para uma “ecologia integral”.
O que são minerais críticos
Os minerais críticos ou essenciais, expressão técnica usada por governos e organismos internacionais, designa aqueles considerados indispensáveis para o funcionamento das cadeias produtivas estratégicas. São os que sustentam a transição energética, digital e militar – os “tijolos” da era pós-petróleo. São “críticos” não só por seu papel industrial, mas por seu peso econômico e geopolítico. Cada país define sua própria lista, mas há um núcleo comum reconhecido globalmente.
Segundo listas recentes da União Europeia, dos Estados Unidos e do Brasil , entre os minerais essenciais mais citados estão: lítio, cobalto, níquel, grafite (para baterias de veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia); cobre e alumínio (para condutores elétricos, turbinas eólica e solar); silício, estanho, gálio, germânio (para microprocessadores, semicondutores, painéis solares); manganês, cromo, zinco (para construção, transporte, energia pesada); fósforo e potássio (fertilizantes e biocombustíveis) etc.
A mineração dos minerais essenciais pode ser altamente poluente, dependendo do método e da etapa do refino. A forma como são minerados e financiados está longe de ser limpa, verde, sustentável e justa. Na extração, estão envolvidos desmatamento, erosão, perda de biodiversidade, emissão de gases de efeito estufa e contaminação por metais pesados. No refino são gerados efluentes ácidos e resíduos com metais tóxicos. Salmouras de lítio e refino de níquel consomem imensos volumes de água e eletricidade. E as barragens com seus resíduos químicos, como a de Brumadinho, apresentam os maiores riscos sociais e ambientais.

Mina de Nióbio, Araxá. Imagem: divulgação CBMM
“O nióbio é nosso – e os resíduos radioativos-tóxicos também”
Entre os minerais críticos está o nióbio, do qual o Brasil detém cerca de 98% das reservas conhecidas do planeta. A família Moreira Salles controla entre 80 e 90% da produção mundial. O nióbio é usado para reforçar ligas metálicas, tornando o aço mais leve e resistente, e é essencial em turbinas eólicas, foguetes, microeletrônica, etc.
Publicado em 2012, o artigo “O nióbio é nosso – e os resíduos radioativos/tóxicos também”, de Norbert Suchanek, chamou a atenção para os impactos ocultos da mineração de nióbio no Brasil, especialmente em Araxá (MG). O autor denunciava que o beneficiamento do minério gera grandes volumes de rejeitos contendo metais pesados e radionuclídeos naturais, como tório e urânio, armazenados em barragens e pilhas de resíduos, com potencial de contaminação do solo, do ar e das águas subterrâneas. O texto registrava relatos de moradores sobre problemas respiratórios, doenças crônicas e casos de câncer, além de questionar o modelo econômico que exporta riqueza mineral enquanto deixa para as comunidades locais os riscos ambientais e de saúde.
Mais de uma década depois, as preocupações permanecem. Estudos acadêmicos recentes confirmaram episódios históricos de contaminação de águas subterrâneas em bairros próximos às minas e a presença de radionuclídeos nos rejeitos, exigindo monitoramento radiológico constante. Outras pesquisas indicam que, em condições controladas, as doses de exposição podem ficar abaixo dos limites oficiais de risco, mas não há consenso científico sobre os efeitos de longo prazo, sobretudo em populações expostas por décadas. Com a expansão contínua da produção, especialistas alertam que a dívida ambiental do setor segue aberta: avanços técnicos reduziram parte dos riscos, mas a gestão de rejeitos e a transparência sobre impactos à saúde permanecem temas sensíveis e inconclusos.
As “terras raras” não são raras
As “terras raras” formam um subgrupo dentro dos minerais críticos. São um conjunto de 17 elementos químicos (entre os 118 da tabela periódica) essenciais para o funcionamento da economia tecnológica contemporânea. Embora o nome sugira algo exótico ou escasso, esses metais não são raros — estão espalhados por todo o planeta. O que é raro, na verdade, é encontrá-los em concentrações altas o suficiente para permitir uma extração considerada economicamente viável.
Esses elementos – como o neodímio, o lantânio, o cério, o disprósio e o ítrio – formam a base invisível da vida digital. Eles estão presentes em smartphones, turbinas eólicas, carros elétricos, painéis solares, mísseis teleguiados, computadores, televisores, sistemas de som e até no laser de leitores de CD e Blu-ray. São, portanto, metais estratégicos para a transição energética e considerados essenciais para a indústria da guerra.
O que as torna preciosas é a dificuldade de extraí-las e separá-las da rocha. Elas se escondem misturadas a outros minerais, frequentemente associadas a tório e urânio, gerando rejeitos radioativos que precisariam de contenção segura por décadas ou séculos. Além disso, exigem processos químicos longos, caros e altamente poluentes. Cada grama refinado deixa para trás 2 kg de rejeitos, e portanto, para cada tonelada, 2 mil toneladas de rejeitos. Por trás do brilho das telas e da leveza dos dispositivos, há rios contaminados, montanhas devastadas e comunidades inteiras marcadas pela poeira metálica.
O paradoxo das terras raras é que, embora estejam em tudo o que consideramos “limpo” e “sustentável”, sua extração e processamento são altamente poluentes, frequentemente produzindo rejeitos radioativos, que contaminam o solo e a água.

Baotou, lago de 11km2 de rejeitos tóxicos. Foto: Veronique de Viguerie/Getty images
China, principal produtora mundial de terras raras
A China assumiu, desde os anos 1990, o peso do custo ambiental da mineração e do refino de terras raras, e se tornou a principal produtora mundial — responsável por mais de 80% da cadeia de suprimentos global. Isso lhe dá um grande poder estratégico: o controle sobre os metais que tornam possível o funcionamento de quase todos os dispositivos digitais. Uma simples restrição de exportações pode abalar cadeias industriais inteiras e redesenhar relações geopolíticas.
Baotou, na Mongólia Interior, tornou-se um símbolo mundial dos impactos ambientais e humanos da mineração e do refino de terras raras. A cidade abriga o complexo de Bayan Obo (a maior mina do mundo) e, sobretudo, o gigantesco lago artificial de rejeitos tóxicos, que recebe resíduos do processamento químico dos minerais. Essas lamas contêm ácidos, metais pesados (chumbo, cádmio), fluorita, enxofre e resíduos radioativos de tório e urânio, contaminando o solo, lençóis freáticos e cursos d’água próximos. Vilarejos ao redor relatam terras improdutivas, água imprópria para consumo e destruição quase total da agricultura local.
Os efeitos sobre a saúde dos trabalhadores e moradores são amplamente documentados por médicos e pesquisadores chineses e internacionais: aumento de doenças respiratórias crônicas, lesões cutâneas, doenças ósseas associadas ao flúor, além de casos elevados de câncer e problemas de tireoide potencialmente ligados à exposição contínua aos rejeitos radioativos e metais pesados. Durante anos, a combinação de alta demanda global, custos baixos e fiscalização ambiental frágil fez de Baotou um exemplo extremo do custo humano oculto por trás da transição energética “verde” baseada em terras raras.

Material radioativo está estocado em Itu (SP) desde a década de 1970 — Foto: Reprodução/ TV TEM
Passado e futuro da mineração de terras raras no Brasil
A história da mineração de terras raras no Brasil não é recente.
Já na década de 40 do século passado, existia em São Paulo uma empresa chamada Usina Santo Amaro, que fazia o beneficiamento de monazita, mineral rico em terras raras, que também geram subprodutos com alta concentração de urânio e tório. Essa empresa privada passou por várias fusões e mudanças de controle até que, em 1975, foi criada a estatal Nuclemon (Nuclebrás de Monazita e Associados Ltda.), como subsidiária da Nuclebrás. A mineração de terras raras ficou atrelada ao programa nuclear brasileiro.
A Nuclemon assumiu antigas instalações privadas, mas manteve padrões pobres de segurança. A sua história é marcada por graves denúncias de contaminação radioativa dos funcionários e do meio ambiente. Os trabalhadores operavam sem a proteção adequada ou informação sobre os riscos do material radioativo, resultando em doenças graves e mortes por câncer e outras patologias, e até hoje lutam por seus direitos. Veja aqui a história completa da Nuclemon.
As antigas instalações em São Paulo, no Brooklin, e o material radioativo mantido em Interlagos são até hoje motivo de preocupação, mesmo que parte de tal material tenha sido transferido para Poços de Caldas e Itu. Veja aqui o breve documentário da TVT sobre a situação dos ex-trabalhadores (os que sobreviveram) e sobre a precária conservação do material radioativo.
“Química” entre Trump e Lula: não era metáfora
Difícil acreditar que ainda não faz um ano desde que Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos. Nesse curto período, mudou o nome do Golfo do México para Golfo da América, quis retomar o controle do canal do Panamá, tenta se apossar da Groenlândia (riquíssima em terras raras) e anexar o Canadá. Barcos que vêm da Colômbia e da Venezuela são bombardeados em águas internacionais, com dezenas de mortos e sem nenhuma evidência de tráfico de drogas que justifique esses ataques. O maior porta-aviões do mundo estaciona no Caribe, e a CIA foi autorizada a realizar operações secretas na Venezuela. Contradição quase inacreditável, Trump acaba de conceder perdão a um ex-presidente da Honduras, condenado nos EUA a 45 anos de prisão por narcotráfico.
Essas e outras ações e muitos dos discursos do presidente americano sugerem, segundo o New York Times, que ele quer dividir o mundo em zonas de influência entre Estados Unidos, Rússia e China. Na mira de Trump estaria todo o hemisfério ocidental, do Círculo Ártico à Patagônia. Além de importantes reservas minerais, a América do Sul, especialmente o Brasil, representa um formidável mercado.
A “química” entre Trump e Lula de que falaram as reportagens não parece retórica — refere-se a negociações reais sobre acesso, exploração, refino e controle de recursos minerais estratégicos. Os Estados Unidos querem reduzir a dependência da China. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas é responsável por apenas 1% da produção mundial. Isso por enquanto. Um levantamento aponta que entre 2025 e 2029 estão previstos cerca de US$ 2,17 bilhões em projetos de terras raras no Brasil — quase 50 % a mais que o valor anunciado anteriormente para 2024-2028.
Em 2025, o governo brasileiro confirmou que pretende negociar com os EUA sobre “minerais críticos e terras raras” — tema explicitamente mencionado na agenda diplomática. O próprio presidente Lula afirmou que o Brasil quer refinar e agregar valor internamente aos minerais estratégicos — e não apenas exportá-los como matéria-prima bruta.
Para os EUA, ter acesso a fontes de minerais críticos fora da China pode ser parte de sua estratégia de segurança nacional e tecnológica; para o Brasil, a negociação é vista como oportunidade de captar investimentos, tecnologia e provocar desenvolvimento industrial.
Mineração e refino de terras raras trazem enormes impactos sociais e ambientais. A forma como o Brasil conduzirá esses empreendimentos será essencial para evitar a repetição de erros históricos. Em jogo estão a natureza, as populações, o planeta. E a situação é ainda mais preocupante, considerando que o congresso derrubou 56 dos 63 vetos do presidente Lula à lei geral do licenciamento ambiental. A nova redação permite o chamado autolicenciamento, eliminando análises técnicas e fragilizando a atuação dos órgãos ambientais, um retrocesso histórico para o país. Terras indígenas também estão ameaçadas pela mineração com a possível aprovação definitiva do marco temporal. Veja aqui como André Trigueiro explica a relação entre a aprovação do marco temporal e do PL da devastação com a mineração de terras raras.

Serra Verde, Minaçu, Goiás – Foto: reprodução/Brasil mineral
Mina americana no Brasil exporta para a China
A mina Serra Verde em Minaçu, Goiás, a aproximadamente 480 km de Goiânia, iniciou atividades de exploração em 2010. A empresa obteve a licença ambiental de operação em 2023, e a produção comercial iniciou-se em janeiro de 2024. A mineradora é considerada a única fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras, segundo o Ministério de Minas e Energia. A Serra Verde é americana e exporta para a China, segundo um contrato que vai até 2027.
Além de Goiás (onde fica Serra Verde), o Brasil tem outros polos importantes de mineração de terras raras em Minas Gerais (Araxá, Poços de Caldas, Tapira e Morro do Ferro), Amazonas (Seis Lagos e Pitinga) e Bahia (Prado e Jequié). Outros estados com potencial incluem Roraima, Sergipe e Rio Grande do Norte.

Homem trabalha em mina de terras raras no condado de Nanchang, na província chinesa de Jiangxi Reuters/Stringer – @moneytimes.com.br
Danos ambientais: terras raras e outros minerais
Medir o “dano ambiental total” de todas as atividades de mineração no mundo é, por natureza, um grande desafio, pois envolve impactos muito diversos, como desmatamento, emissões de gases de efeito estufa (GEE), geração de resíduos, contaminação da água e do solo, poluição do ar, perda de biodiversidade e resíduos radioativos. Não existe uma métrica única, universalmente aceita, capaz de agregar tudo isso em um único “índice de dano total”.
A mineração global move bilhões de toneladas por ano – cerca de 8,9 bilhões de toneladas de carvão, 2,6 bilhões de minério de ferro, 23 milhões de toneladas de cobre e apenas 3 mil toneladas de ouro, frente a 390 mil toneladas de óxidos de terras raras –, porém o impacto ambiental não acompanha apenas o volume extraído. Ferro e carvão lideram a devastação pela escala territorial gigantesca, enquanto o ouro, mesmo produzido em peso ínfimo, figura entre os maiores causadores de desmatamento e contaminação por cianeto e mercúrio. Já as terras raras, apesar de pouco visíveis nas estatísticas globais de volume, concentram uma das mais altas taxas de toxicidade industrial por tonelada produzida, devido à geração de rejeitos ácidos, metais pesados e resíduos radioativos, ampliando severamente o impacto ambiental nas áreas onde são exploradas.
Conclusão – parafraseando algumas ideias da encíclica Laudato Sì
Os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento econômico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem.
Não somos proprietários e dominadores da natureza, autorizados a saqueá-la. Somos, ao contrário, parte da natureza, e a sua exploração desconsiderada fará de nós vítimas dessa degradação.
Precisamos eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito ao meio ambiente.
Toda a pretensão de cuidar do mundo e melhorá-lo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo e nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades.
Maristela Jardim Gaudio – Novembro 2025
Imagem de abertura: elementos de terras raras e minérios metálicos refinados -@neofeed.com.br

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