A trajetória da empresa Orquima e das Usina Santo Amaro (USAM) e Usina Interlagos (USIN) condensa um capítulo pouco conhecido da industrialização brasileira: a passagem de uma indústria química “moderna” para um dos piores passivos radioativos urbanos do país.
A Orquima, Indústrias Químicas Reunidas S.A., foi fundada em 1942, em São Paulo, pelo poeta e empresário Augusto Frederico Schmidt e por seu amigo, o químico Kurt Weill. Inicialmente, dedicava-se à síntese de produtos orgânicos — entre eles cafeína para a indústria de refrigerantes, insumos farmacêuticos e compostos orgânicos finos. Sua primeira fase operou na área urbana de Santo Amaro, em endereço então industrial próximo à Avenida Santo Amaro, onde funcionavam escritórios, laboratórios e uma pequena planta química.
Com o fim da Segunda Guerra, a empresa muda de foco: a partir de 1946, passa a se dedicar à química mineral, e em 1949 inicia a industrialização de areias monazíticas para produzir tório, urânio e compostos de terras raras — insumos estratégicos para o nascente programa nuclear e para indústrias de fósforos, lâmpadas e, mais tarde, televisores. Para isso, a Orquima criou a Usina Santo Amaro (USAM), unidade de produção de compostos de terras raras em São Paulo, construída em 1946 e rapidamente expandida. O terreno ocupava a quadra situada entre a Rua Princesa Isabel e a Rua Kansas, estendendo-se até próximo da Avenida Santo Amaro, no Brooklin.

Em branco, área ocupada pela antiga USAM no Brooklin – imagem Chatgpt/Google Earth
Com o aumento de escala e a necessidade de áreas para estocar rejeitos, parte das operações logísticas e do armazenamento de resíduos radioativos foi deslocada para uma segunda unidade, a USIN, instalada na região de Interlagos, em área vinculada à Usina Termelétrica de Piratininga, junto à Avenida Miguel Yunes e próxima ao entroncamento com a Avenida Interlagos. A produção química principal, porém, continuou concentrada na USAM, no Brooklin, onde eram processadas areias monazíticas vindas do litoral do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia. Ali, durante décadas, foram produzidos óxidos e sais de terras raras — e, como subproduto, grandes volumes de resíduos contendo urânio e tório, conhecidos como Torta II, altamente radioativos.
A virada estatal ocorreu em meados dos anos 1960. Em 1966, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) adquire os bens da Orquima, incorporando a USAM e assumindo o controle da produção de compostos de terras raras. Em 1974, em pleno governo militar foi criada a estatal Nuclebrás – centro do projeto nuclear brasileiro até 1988, quando em crise financeira, foi substituída pela INB (indústrias Nucleares do Brasil), que existe até hoje. Em 1976, foi fundada a Nuclemon – Nuclebrás de Monazita e Associados Ltda., a usina passa a ser conhecida como “Usina Santo Amaro da Nuclemon”, consolidando o monopólio estatal sobre a cadeia da monazita.
Ao longo dos anos 1980, a Nuclemon estudou a modernização do parque industrial e chegou a projetar o uso ampliado da unidade de Interlagos (USIN). Na prática, porém, a USIN funcionou predominantemente como depósito e área de manuseio de rejeitos radioativos oriundos da USAM. Em setembro de 1989, a unidade foi formalmente inaugurada, mas as operações industriais mais complexas, previstas em projeto, nunca se concretizaram plenamente.
O legado ambiental dessas operações é devastador. Por mais de 50 anos, a USAM tratou monazita em área densamente urbanizada, produzindo compostos de terras raras e toneladas de resíduos radioativos estocados em condições precárias, com risco permanente para trabalhadores e moradores do entorno. Parte desse material foi enviada para aterros como o Bandeirantes e o lixão de Perus; outra parte acabou transferida para o galpão da USIN, em Interlagos, transformando a zona sul de São Paulo em um mosaico de passivos nucleares.

Galpão com rejeitos radioativos na Rua Miguel Yunis/Av. Interlagos, São Paulo
As duas unidades, Santo Amaro e Interlagos, foram desativadas no início da década de 1990 — documentos da Câmara Municipal indicam 1992 como o ano de encerramento das atividades. Mas o fim da produção não significou o fim do problema: o que ficou para trás foram galpões cheios de Torta II e solos contaminados. Segundo a própria Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que herdou o passivo, o depósito de Interlagos abriga cerca de 1150 toneladas de rejeitos, mais de 500 dos quais de Torta II, e as restantes toneladas, de equipamentos e sucatas contaminados.
Outras 3.500 toneladas de Torta II provenientes da USAM foram levadas para o Sítio São Bento, em Botuxim, no município de Itu (SP), onde permanecem em silos, sob responsabilidade da INB. Em Interlagos, o terreno segue cercado e sinalizado, com monitoramento radiológico, mas sem descontaminação integral: reportagens e vistorias da Câmara Municipal e do Ministério Público indicam que o solo e o lençol freático ainda apresentam risco, enquanto a definição sobre o destino final dos rejeitos se arrasta há décadas.
Em 2005, a Prefeitura de São Paulo anunciou a intenção de “descontaminar e liberar” o terreno de Interlagos. Em 2009 e 2011, vereadores cobraram da INB um plano para remoção do lixo radioativo — prazo que nunca se cumpriu. Em 2021, o governo federal voltou a discutir o envio dos resíduos para um depósito definitivo em outro estado, mas até hoje não há solução conclusiva.
O resultado é um paradoxo da era nuclear brasileira: a indústria que colocou o país na vanguarda das terras raras no século XX deixou, como herança, um galpão de lixo radioativo no coração da maior metrópole do país, ainda à espera de um desfecho técnico, político e ético. Enquanto isso, moradores de Santo Amaro, Brooklin, Interlagos e Botuxim convivem com um passado que não foi encerrado — e com a lembrança de que, na história da Orquima, da USAM e da USIN, a conta ambiental continua aberta.

Em branco, área ocupada pela antiga USIN em Interlagos – Imagem chatgpt/Google Earth
Saúde dos trabalhadores da Nuclemon
Funcionários da Nuclemon que sobreviveram relatam que, durante décadas de trabalho na unidade localizada na zona sul de São Paulo, foram expostos a pó rico em urânio e tório, radiação ionizante e poeira radioativa, em meio a condições de trabalho marcadas por calor intenso, ruído alto e falta de equipamentos de proteção adequados — como máscaras e roupas específicas. Muitos ex-trabalhadores afirmam ter desenvolvido silicose, doenças pulmonares e vários casos de câncer; há também relatos de perdas auditivas, dificuldade respiratória crônica e outros problemas graves de saúde. O legado da Nuclemon é de contaminação e morte — leia aqui o artigo da Antpen (Associação Nacional dos Trabalhadores da produção de energia nuclear).
Após o fechamento da Nuclemon na década de 1990 e a desativação da unidade, ex-funcionários organizaram ações judiciais reivindicando assistência médica vitalícia, indenizações por danos físicos e morais, e aposentadoria especial, argumentando que a radiação e os rejeitos tóxicos — acumulados sem a devida descontaminação ou proteção — causaram prejuízos à saúde e ao direito humano ao trabalho com segurança.
Apesar de os pedidos e de parte dos ex-trabalhadores terem conseguido na Justiça o direito a convênio de saúde e monitoramento médico, muitos reclamam da indisponibilidade de exames específicos, da dificuldade de acesso a tratamento e da precariedade da cobertura médica oferecida, especialmente para casos mais graves e de longo prazo.
Além disso, inspeções realizadas nas décadas de 1980–1990 por órgãos de fiscalização do trabalho e meio ambiente identificaram inadequação grave das instalações da Nuclemon, processamento de materiais radioativos sem controle, armazenamento de rejeitos nucleares em áreas impróprias e exposição conjunta de funcionários administrativos e operacionais à radiação — o que configura risco grave à saúde coletiva e ocupacional.
O histórico da Nuclemon revela não apenas a falha em prevenir impactos ambientais e riscos radiológicos, mas sobretudo descaso com a saúde e a dignidade dos trabalhadores.
Imagem de abertura: Rejeito nuclear Torta II. Foto: @antpen.com.br
Maristela Jardim Gaudio – dezembro 2025

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