A premonição em animais

Os terremotos e os tsunamis são caracterizados por abalos sísmicos derivados do movimento das placas tectônicas e de falhas geológicas. Antes da evidência dessas manifestações, ocorrem fenômenos indicativos, como deformações terrestres, aumento na temperatura da superfície, distúrbios ionosféricos e sinais acústicos. Sabe-se de diversos relatos e evidências que roedores, primatas, anfíbios e elefantes, dentre outros, pressentem tais desastres ao captar os fenômenos indicativos, o que gera diferentes reações e mudanças comportamentais nesses animais.

Os relatos que descrevem o comportamento animal antes de eventos sísmicos são bastante antigos. Segundo o site oficial do governo norte-americano dedicado a esses fenômenos, o historiador grego Tucídides (460-400 a.C.) notou que ratos, doninhas, cães e cobras haviam saído de suas tocas e fugido, deixando a cidade de Helique – ou Hélice, localizada na Grécia Antiga, ao norte do Peloponeso – antes de um terremoto devastador e posterior tsunami que submergiu a cidade.

Conta-se que pouco antes do terremoto de Nápoles, na Itália, em 1805, bois, carneiros, cães e gansos começaram a emitir sinais de alarme ao mesmo tempo. Há registros de cavalos em pânico momentos antes do terremoto em São Francisco, em 1906, nos Estados Unidos

O tsunami que ocorreu em 2004, resultante de um terremoto subaquático na costa da Indonésia, matou mais de 225 mil pessoas em 12 países. Diante do tsunami gigantesco, vários animais fugiram da ameaça que se avizinhava enquanto os homens foram surpreendidos. Há vários depoimentos sobre animais que procuraram fugir antes que as ondas de mais de nove metros de altura chegassem ao continente – elefantes foram para terrenos mais altos, flamingos abandonaram seus ninhos em terras baixas e búfalos correram para o topo de um morro.

Precedendo a percepção de qualquer sinal da avalanche de lama que estava a caminho, vários sobreviventes da tragédia em Brumadinho (MG), que ocorreu a 25 de janeiro de 2019, repararam no estranho comportamento de cachorros e galinhas, além de verem o gado correndo. Conforme explica Carlos Alberts, professor de zoologia e comportamento animal da UNESP (Universidade Estadual Paulista), “A barragem não rompe de uma vez só. Ela tem movimentos anteriores ao rompimento completo. Esses movimentos geralmente emitem sons ou muito baixos ou infrassom, que é uma frequência abaixo do que o ouvido humano consegue ouvir”.

Entre outubro de 2016 e abril de 2017 foi realizado um estudo na região de Marcas, na Itália, que é sujeita a terremotos, quando pesquisadores tentaram registrar cientificamente esse fenômeno. Observaram a atividade de animais antes de um tremor, monitorando vacas, ovelhas e cães de uma fazenda e constatando que havia mudanças de comportamento até 20 horas antes de um terremoto. Quando todos os animais alteravam seus hábitos durante 45 minutos ou mais – as vacas ficavam paradas, imóveis; os cachorros agitavam-se, começavam a latir muito; e as ovelhas desorientavam-se -, os pesquisadores previram que haveria tremores acima de 4,0 de magnitude na escala Richter. Concluiu-se que sete dentre oito observações foram corretas. Esse estudo foi publicado em 2020, na revista Ethology, por Martin Wikelski, diretor do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, na Alemanha.

 “Quanto mais próximos os animais estavam do epicentro do choque iminente, mais cedo eles mudavam de comportamento”, afirmou Martin Wikelski. “Isso é exatamente o que você esperaria, uma vez que as mudanças físicas ocorrem com mais frequência no epicentro do terremoto iminente e se tornam mais fracas com o aumento da distância.”

Os terremotos são precedidos por um período em que surgem fortes tensões nas rochas profundas. Essas tensões criam cargas eletrônicas com alta mobilidade, gerando ondas eletromagnéticas em ultrabaixa frequência que fluem rapidamente da crosta para a superfície da Terra, ionizam moléculas de ar do local onde surgem e são captadas por alguns animais. Há também muito ferro no corpo dos animais, elemento sensível ao magnetismo e aos campos elétricos. Vários animais possuem aparelhos sensoriais bastante desenvolvidos que podem detectar uma série de sinais naturais dos quais dependem suas vidas, como a percepção do ar ionizado pelas sensações no pelo ou nas penas.

dois tipos de ondas sísmicas associadas aos tremores de terra: as ondas P, as primeiras emitidas em um terremoto, que viajam numa velocidade de diversos quilômetros por segundo a partir do epicentro, e as ondas S, secundárias, que fazem o chão estremecer. Os humanos não conseguem perceber as ondas P, mas muitos animais com sentidos mais afiados sentem essas ondas antes da chegada das ondas S.

Em outro estudo realizado, Wikelski monitorou os movimentos de cabras nas encostas vulcânicas do Monte Etna, na Sicília (Itália), concluindo que elas demonstravam sentir antecipadamente quando o Etna entraria em erupção.

A China criou um sistema de alerta de terremotos em Nanning, no sul do país, que monitora o comportamento de cobras em fazendas de uma região sujeita a terremotos. As cobras possuem mecanismos sensoriais para detectar minúsculas alterações de aspectos do seu ambiente, e foram mudanças súbitas no comportamento das cobras e de outros animais que alertaram as autoridades para evacuar a cidade chinesa de Haicheng, em 1975, pouco antes de um grande terremoto, o que possibilitou salvar muitas vidas.

“De todas as criaturas da Terra, as cobras talvez sejam as mais sensíveis aos terremotos”, afirmou Jiang Weisong, diretor do escritório de Nanning, “Quando um terremoto está por acontecer, as cobras saem dos seus ninhos, mesmo no frio do inverno.”

Em 2014, cientistas que rastreiam aves nos Estados Unidos registraram um grande evento de migração de evacuação. As aves saíram do seu local de reprodução – nas montanhas Cumberland, ao leste do Tennessee – e voaram por 700 km, apesar de terem anteriormente voado 5 mil km, desde o norte da América do Sul. Pouco depois, mais de 80 tornados atingiram a região, matando 35 pessoas e causando grandes prejuízos. Conclui-se que os pássaros sentiram de alguma maneira os ciclones se aproximando a mais de 400 km de distância, possivelmente pelo infrassom – sons de fundo de baixa frequência presentes em todo o ambiente natural.

“Os meteorologistas e físicos sabem há décadas que tempestades com tornados produzem infrassons muito fortes que podem viajar por milhares de quilômetros de distância da tempestade”, afirmou Henry Streby, biólogo da vida selvagem da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA). Concluiu que o infrassom de tempestades intensas propaga-se em uma frequência que os pássaros estariam capacitados a ouvir.

O projeto Kivi Kuaka pesquisa se o comportamento dos pássaros poderá servir de alerta contra tsunamis, que geram padrões de infrassom distintos que antecipam as imensas ondas. Sabe-se que os sistemas de alerta precoce com animais não seriam suficientes para prever desastres naturais, é necessária uma combinação de diversos sistemas de captação, mas a conduta dos animais é um fator bastante considerável visando-se a proteção diante de desastres naturais.

Roberto Cenni

março de 2025

foto: Aves migratórias podem sentir desastres naturais, John Fowler/Creative Commons

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